A teologia não deveria ter se afastado das descobertas científicas, e a
ciência nunca deveria ter virado as costas para a teologia, até mesmo porque os
motivos do afastamento foram mais econômicos, políticos e ideológicos do que
propriamente fundamentados em afirmações de ambas as partes. O divórcio entre a
religião e a ciência não foi motivado por brigas intelectuais. O rompimento do
casamento aconteceu quando surgiu na sociedade uma nova ordem de pensamento.
Quando o capitalismo se estabeleceu como nova definição de ordem social,
o casamento da ciência com a religião se tornou insustentável. Afinal, o novo
homem, moderno e capitalista precisava de liberdade para lucrar, precisava de
liberdade para comprar e vender, liberdade para criar novas leis que
beneficiassem o crescimento financeiro.
No novo paradigma de sociedade, as questões de natureza ética e moral
atrapalhavam o sucesso dos negócios. A solução mais eficiente seria destronar a
religião e reinventar a explicação para os fenômenos naturais.
Antes da ascensão da burguesia ao poder, a religião era a principal
influência das convenções sociais. A partir dela, a sociedade passou a ser
orientada pela ciência e pela razão.
Afundados na profundidade do Lago passaram explicar a realidade sem a
interferência dos lampejos de luz espiritual mística.
O Evangelho de Jesus sempre atrapalhou o sucesso dos negócios, isso
porque a fé transfere para Deus a explicação dos fenômenos. Pelo menos, deveria
ser assim!
Mas também não era!
A igreja do mundo não se comportava como igreja de Deus.
Diante de uma nova ordem cultural e científica, o deus da igreja não era
suficientemente interessante para o homem. Pelo contrário, o deus da igreja
tinha se tornado capitalista antes do homem, e explorava o homem antes do homem
explorar o seu semelhante. Um deus de mentira, feito à imagem e semelhança de
seu criador.
O homem estava cansado de uma igreja que era apenas a expressão grotesca
de si mesmo e do objetivo de seus líderes. Não havia nada de Deus na igreja;
havia apenas intenção de ganhar mais dinheiro para sustentar seus líderes de
luxo e preguiça.
Cansado de uma religião sem Deus, a partir do século vinte o homem quer
ganhar dinheiro enquanto exclui Deus de suas equações existenciais. O divórcio
foi inadiável. Hoje ambos tentam uma reconciliação, e esse livro é uma carta de
pedido de perdão escrita para ambos os lados.
Um dia certamente se reencontrarão; isso é inevitável, afinal os dois
falam da mesma coisa.
Essa história de desentendimento é bem antiga! O casal já estava
brigando a mais de mil anos!
É uma história bem mais antiga que o evento de virada de mesa com
advento do Capitalismo. Tudo começou quando a Igreja resolveu enjaular a
liberdade do pensamento humano.
Durante centenas de anos a igreja perseguiu cientistas, alquimistas e
pessoas dotadas de pensamento livre.
Nesse tempo de ‘trevas culturais’, toda vez que a igreja se deparava com
uma descoberta científica que tinha o poder ‘subversivo’ de ‘contaminar’ a fé
dos seus ‘lucrativos’ fiéis, a atitude do clero sempre era a de perseguir,
torturar, prender e até mesmo eliminar o propagador das heresias.
A humanidade viveu uma inquisição em nome da proteção ‘da honra de
Deus’. Mas, o que os perseguidores queriam não tinha nada de Deus. Eles queriam
apenas perpetuar o controle sobre os amedrontados religiosos que nunca diziam
não à ‘boca do gazofilácio’.
A história se repete mas o interesse do homem permanece o mesmo. Em um
momento da história a igreja perseguiu os cientistas e naquele momento eram
motivados por uma razão financeira.
Em outro momento da história a comunidade cientifica passou a ignorar os
postulados da fé.
Todos os grupos eram motivados pelo mesmo falso deus. Pastores e padres
lutando contra biólogos e astrofísicos, e todos curvados diante de Mamon.
Na Idade Média o Cristianismo era a religião dominante do mundo europeu,
mas a cosmologia aceita pela igreja não era bíblica.
Naquele tempo o Papado impôs como conceito dominante o geocentrismo de
Ptolomeu e Aristóteles, que definia uma ciência na contramão dos escritos de
Moisés. Contrário aos relatos do Genesis, e naturalmente em função da origem
romana da Igreja, a astronomia grega foi adotada como correta.
A cosmogonia da grécia clássica era a evolução de cosmogonias mais
antigas, e levava em conta inclusive as noções da gênese bíblica. As tradições
antigas estão entrelaçadas e a própria cosmogonia do Genesis levava em conta
elementos que já existiam em conceitos egípcios e babilônios, que eram mais
antigos que os conceitos que Moisés deixou no Pentateuco.
É certo que Moisés e os escribas que vieram depois dele conheciam o
panteão dos escritos egípcios e babilônios. Com certeza eles perceberam que se
os conceitos politeístas fossem substituídos pela figura central de Um Único
Deus Invisível, não haveria muita diferença entre a cosmogonia judaica das
demais cosmogonias do mundo.
Quando Deus entregou a revelação da Torá a Moisés, o mundo estava
permeado de conhecimento sobre a forma como os deuses haviam criado o mundo.
Moisés ao escrever a Torá, inevitavelmente percebeu que as outras religiões de seu tempo possuíam ‘pedaços’ da verdade e que de forma distorcida todos os povos anteriores aos seus escritos acreditavam em algo muito parecido com aquilo que ele estava escrevendo.
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