quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A PARÁBOLA DO SERVO INÚTIL


Lucas 17:7-10
7 E qual de vós terá um servo a lavrar ou a apascentar gado, a quem, voltando ele do campo, diga: Chega-te, e assenta-te à mesa?
8 E não lhe diga antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me até que tenha comido e bebido, e depois comerás e beberás tu?
9 Porventura dá graças ao tal servo, porque fez o que lhe foi mandado? Creio que não.
10 Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer.

Vivemos hoje em um mundo muito diferente do mundo dessa parábola. Em nossa era, as Convenção das Leis do Trabalho (CLT) e os acordos sindicais garantem amplos direitos ao trabalhador. Não era assim na Palestina do Século I. Quando comparamos o mundo do nosso tempo com o mundo do tempo desta parábola, a relação entre empregador e empregado nos dias de Cristo nos parece absurdamente injusta.

Nos dias de hoje, depois de um estafante dia de trabalho no campo, qualquer trabalhador merecia, no mínimo, um pouco de consideração de seu patrão. Merecia até mais! Era digno de uma recompensa e de muito reconhecimento.

Mas nos dias de Cristo a relação de trabalho não era assim! E para compreendermos essa parábola com exatidão precisamos ter em mente que Jesus está construindo uma história sobre os padrões de comportamento de sua própria época. Os padrões sociais aludidos na parábola, em seu próprio tempo eram bem aceitos e praticados em toda a relação patronal do Oriente Médio da antiguidade.

A Parábola do Servo Inútil tem uma poderosa mensagem para o mundo de hoje e quando Jesus a contou existia duas lições principais que o Mestre queria deixar gravado na inteligencia de seus seguidores:


Motivo 1: COLOCAR A FÉ NO LUGAR CERTO

Voltemos um pouquinho no texto abordado em epígrafe. Nos versículos imediatamente anteriores a esse texto nós lemos que os discípulos fazem um pedido a Jesus.

Lucas 17:5-6 - "Disseram então os apóstolos ao Senhor: Acrescenta-nos a fé.
E disse o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Desarraiga-te daqui, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria".

Imagine se Jesus prontamente atendesse o pedido dos seus discípulos? 
Imagine se os discípulos recebessem mais fé, aquele tipo de fé poderosa que move montanhas para o mar, você não imagina que eles ficariam mais orgulhosos de si mesmos?E se essa poderosa fé os habilitasse a realizarem grandes maravilhas, esses "milagres" não os tornariam vaidosos e orgulhosos de seus "próprios" feitos?

Vemos isso em outro texto onde os discípulos se sentiram poderosos e melhores que os outros. (Lucas capítulo 10). Quando Jesus os enviou em missão, e nessa missão eles realizaram grandes feitos, nós lemos que eles voltaram falando dos milagres que haviam realizado. 

17 Quando os setenta e dois discípulos voltaram, cheios de alegria, contaram: “Senhor, os próprios demónios nos obedecem quando nos servimos do teu nome.”

Eles haviam se saído muito bem aos seus próprios olhos. Se gabaram daquilo que Deus fez. Não se entenderam como simples serviçais. Eles focaram o resultado da missão na realização de  milagres e maravilhas e não na propagação do Evangelho que salva o homem da condenação eterna. Eles consideraram que tinham poder em si mesmos. Que tinham a habilidade de realizar milagres. E ficaram muito orgulhosos de si mesmos.

Nesse momento Jesus os exortou a ficarem muito mais felizes porque seus nomes estavam escritos no livro da vida. Milagres estão em um plano inferior quando comparados à salvação eterna.

20 "Todavia não se alegrem porque os demónios vos obedecem. Alegrem­-se por os vossos nomes estarem registados nos céus.”

Até hoje (infelizmente), a igreja de pedra tem seu foco voltado mais para as bênçãos do corpo físico e para a prosperidade do bolso do que para a salvação eterna da alma. 
Basta ligar a televisão em qualquer canal de programa evangélico que com raras exceções você assistirá promessas de cura e de prosperidade. Perceberá que mesmo quando o pregador fala da salvação eterna, ele faz isso como mero subterfúgio para continuar falando de bençãos do plano físico enquanto troca seus produtos 'santificados' por "ofertas de amor" a serem depositadas na conta corrente de sua organização.

O primeiro motivo para Jesus ter contado essa parábola é: Existe um modo certo de se usar a fé. E esse modo nunca é a realização dos próprios desejos.


Motivo 2: RESOLVER DEFINITIVAMENTE A QUESTÃO: QUEM É O MAIOR NO REINO DOS CÉUS?

Acontecimento 1

Mateus 18:1 - Naquela mesma hora chegaram os discípulos ao pé de Jesus, dizendo: Quem é o maior no reino dos céus?

Os discípulos de Jesus queriam dividir os ministérios do reinado de Jesus!
Quando eles fazem essa pergunta ao Mestre, Jesus toma umas criancinhas e diz que as crianças são maiores do que todos eles.

Mateus 18:3 - "Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus."

Isso é um tapa de luva na vaidade dos discípulos. Jesus está dizendo a eles: "quer ser o maior? Então seja o menor!"


Acontecimento 2

Mateus 20:20-24 -  "Então se aproximou dele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-o, e fazendo-lhe um pedido.
E ele diz-lhe: Que queres? Ela respondeu: Dize que estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino.
Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos.
E diz-lhes ele: Na verdade bebereis o meu cálice e sereis batizados com o batismo com que eu sou batizado, mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem meu Pai o tem preparado.
E, quando os dez ouviram isto, indignaram-se contra os dois irmãos."

Os pais sempre preferem seus próprios filhos. E os pais de Tiago e João não faziam diferente! Nessa cena eles estavam intercedendo a favor de um futuro melhor para seus pupilos!
O que esses pais ainda não haviam entendido era que o Reino de Deus era uma outra coisa! Mal sabiam eles que o Reino acerca do qual Jesus falava não se conectava com poder ou riqueza material! Não ajuntariam riquezas, nem estabeleceriam poder. Os súditos desse reino imaterial levariam suas vidas como pobres e como fugitivos da policia romana.
Seria cômico se não fosse trágico. 
Um pedido desconexo: os pais empolgados pedindo melhores posições para os filhos. 
Esses pais não sabiam que quando Jesus chama alguém, Ele chama essa pessoa para morrer. Tiago, não muito tempo depois seria decaptado, e João morreria como exilado na Ilha de Patmos.

Essa Parábola do Servo Inútil nos atropela com o objetivo de neutralizar o veneno da auto justiça e destruir os pilares arrogância pecaminosa.

A arrogância que nos faz pensar na religião das barganhas. 

Na teologia moral de causa e efeito que nos faz acreditar que temos algum tipo de crédito com Deus. 

A auto justiça que nos coloca numa pseudo posição de achar que podemos negociar com Deus o recebimento de qualquer benécie em função de nosso bom comportamento.

A parábola do Servo Inútil vem desconstruir de uma vez por todas as frases de efeito tão usadas pelos comerciantes da fé: 
"eu trabalho para Deus, Deus trabalha para mim... eu cuido das coisas de Deus, Deus cuida das minhas coisas".
Essa parábola coloca tudo no seu devido lugar: "eu trabalho para Deus e faço isso porque essa é minha obrigação. Deus não é obrigado a me dar nada em troca."


Essa Parábola é atual! É dirigida a uma igreja que se ilude, pensado que pode dizer frases do tipo: "Eu determino". 
Essa parábola nos ensina que não determinamos nada. Que somos apenas servos e nada mais.

Essa Parábola nos ensina que vivemos por conta da graça de Deus. 
Merecemos o juízo! 
A salvação nos é conferida como nuance da bondade de Deus. 

Não merecemos. Somos aceitos pela sua inexplicável graça.

Diante de um Deus Santo e Justo nunca poderemos dizer: "Deus está em débito comigo". 

Deus não orienta nossa relação com ele pelas normas da CLT.
Deus é Criador. Nós somos suas criaturas. Devemos a vida a Ele. Temos a obrigação de Lhe prestar louvor. Afinal, foi para isso que fomos criados.


Somos vencedores. Somos reis. Somos filhos de Deus. Mas também somos escravos.

Nesse texto, Lucas usa a palavra grega ‘DOULOS’. 
Literalmente essa palavra significa: 'ESCRAVO'. 

Jesus conta a parábola a um povo que vivia numa cultura onde a escravidão fazia parte da sociedade. Onde um homem comum (não rico) tinha pelo menos 1 escravo.
Ser escravo, numa sociedade como essa, não era de tudo negativo. O senhor dava ao escravo identidade, sustento e senso de missão. O escravo participava da dignidade do seu senhor.
E um bom escravo se orgulhava da casa onde servia!

Todavia algumas regalias nunca era cedidas ao escravo. 
Por exemplo: na hora da alimentação, um escravo nunca se sentava a mesa com seu senhor. Eram escravos, não eram da família. Escravos eram considerados como bens negociáveis. Eram vendidos e comprados, negociados da mesma maneira que se negocia animais ou terrenos.

E mais, um escravo bom de serviço não era nada excepcional. 
Era semelhante a um relógio que marca as horas corretamente. Relógio que marca horas corretamente tem algo de excepcional?
Um escravo tinha a obrigação de ser bom. Se não fosse bom, não valia a pena gastar comida com ele.


SOMOS ESCRAVOS

Não nos pertencemos. Somos de Deus!
Primeiro porque somos criação Dele.
Finalmente porque fomos comprados por Jesus (Redenção).
O Apóstolo Paulo sempre sentia prazer em se intitular como escravo do Senhor Jesus. Um orgulho de ser propriedade do Rei do Universo!


7 “E qual de vós terá um servo a lavrar ou a apascentar gado, a quem, voltando ele do campo, diga: Chega-te, e assenta-te à mesa?”

Arar campo, alimentar gado e cumprir todas as tarefas diárias não garante ao escravo nenhuma recompensa imediata.
 O escravo tem sempre mais tarefas a cumprir.


O SENHOR NOS EXIGE SOMENTE UMA COISA:

                                                                                       TUDO!


8 E não lhe diga antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me até que tenha comido e bebido, e depois comerás e beberás tu?
9 Porventura dá graças ao tal servo, porque fez o que lhe foi mandado? Creio que não.

Chega a hora da ceia: 15 hs. E o Senhor espera por mais trabalho e fidelidade. Quando o servo cumpre suas obrigações, ele merece algum tipo de elogio ou recompensa? 
O texto é claro em afirmar: não tem bônus. Tem mais trabalho. Sempre mais trabalho.

Nesse ponto chegamos ao ápice dessa parábola:



DE UM DEUS QUE ESPERA TUDO DE MIM, O QUE POSSO DAR COMO BÔNUS?

10 Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer.

As recompensas nos são prometidas pela Palavra, mas não podemos trabalhar motivados apenas pela premiação. Servimos porque pertencemos a ele. Porque o amamos!

Não existe excesso de mérito em nós. 

Mesmo após fazer tudo, continuamos sendo apenas escravos.
Damos nosso máximo porque somos escravos. E dar o máximo de nós, é nossa obrigação!

Se esperamos agradecimentos ou agrados porque estamos fazendo aquilo que é nossa obrigação fazer, isso significa que o nosso coração está na RECOMPENSA e não no DEVER.


Pense nisso:

VOCE OBEDECE A DEUS PORQUE O AMA, OU PORQUE QUER GANHAR RECOMPENSA?

A compreensão e aceitação da Parábola do Servo Inútil nos conduz ao caminho do não egoísmo e da não vaidade.

Servimos a Deus porque esse é o nosso dever.

Você pode até dizer: 
EU NÃO CONCORDO COM ISSO! 
SE EU FAÇO POR MERECER, DEUS TEM O COMPROMISSO DE ME RECOMPENSAR.

Mas pensar assim não vai mudar nada na abordagem do Evangelho.

Você precisa entender uma coisa: DEUS SÓ RECOMPENSA AQUILO QUE FAZEMOS SEM SEGUNDAS INTENÇÕES.

O que pavimenta o chão dessa parábola é a GRAÇA. Somente alguém que foi redimido e salvo por Jesus é que consegue dizer: SOU UM SERVO INÚTIL.

Essa parábola valoriza a relação de amor que deve existir entre nós e o Senhor Jesus.

Não é troca... é entrega total.

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Veja também!

A PARÁBOLA DAS OVELHAS PERDIDAS

http://teolovida.blogspot.com.br/2015/06/as-ovelhas-perdidas.html

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M.e. César de Aguiar
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teolovida@gmail.com

4 comentários:

  1. Ótima exposição da parábola. Verdadeiramente há muito trabalho a ser feito, e pouca compreensão de como deve ser feito este. Que Javé nos ajude a compreender a nossa natureza pecaminosa e adorá-Lo como verdadeiramente merece.

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  2. Linda mensagem. Foi muito edificante para minha vida.

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  3. João 15:14,15,16 Jesus disse que somos amigos dele e não servos.

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