domingo, 14 de junho de 2026

ENUMA ELISH E GÊNESIS

 



Usando o mesmo critério para dar nome ao Gênesis bíblico, o nome Enuma Elish foi retirado das primeiras palavras daquele poema e significa ‘Quando no alto’. O nome do Gênesis é Bereshit e significa: ‘No princípio’, que são as primeiras palavras do livro bíblico.

Para a cultura babilônica, o Enuma Elish explica que a realeza humana tem a sua origem na realeza divina. Segundo o relato, a divindade continuará sendo o verdadeiro e legítimo rei de toda a criação e também o paradigma do reinado dos terrestres. Nesse sentido, a existência de um paradigma divino impõe sentido à existência da realeza humana.

O sentido que o Enuma Elish dá para a vida humana é muito parecido com o sentido que YHWH deu para a consciência de seu povo.

Na Religião de Deus o homem é o Rei do Mundo, todavia ele existe para louvor e glória Daquele que o criou.

A beleza do relato babilônico dura muito pouco.

No Gênesis, o homem foi criado a partir de uma mistura de terra e água para ser amigo de Deus e governar sobre a criação. No Enuma Elish, o homem é criado a partir do derramamento de sangue de um deus, para ser escravos dos deuses.

No Enuma Elish a criação é realizada em meio a tramas de ódio, vingança e assassinato. Em meio às épicas batalhas, os deuses mostram suas fragilidades e se tornam sujeitos à matéria e mais fracos que a própria natureza criada.

A imposição dos poderes desses deuses se faz através de encantamentos mágicos, usando a própria energia da natureza. Esse relato nada mais é que a falsa versão de Lúcifer da guerra na qual ele foi vencido no Céu dos Céus. A Serpente quer conferir legitimidade às suas ações e faz isso criando uma religião em volta de si.

No Gênesis, a natureza é uma súdita obediente ao Criador e tudo vem à existência pelo comando da voz de Deus. A criação é executada em meio a uma profunda sensação de equilíbrio, tranquilidade e paz. Segundo o relato do Gênesis, Deus trouxe tudo à existência através de sua Palavra, o Logus, que se resume em comandos simples: "E disse Deus ..." "E assim se fez ...".

Enquanto os deuses babilônicos são atributos da própria natureza, o Deus do Gênesis é o Criador Supremo.

Diante do Deus verdadeiro a natureza se curva, sendo sob Ele, autônoma no seu funcionamento.

O Gênesis é um perfeito épico da criação enquanto o outro tem a finalidade de ser uma propaganda mitológica com o objetivo de inserir o deus Marduk como o maioral do panteão babilônio. Além do objetivo religioso, o Enuma Elish objetivava exaltar a grandeza da cidade de Babilônia e assim eternizar o poder e influência de seus maiores governantes, o Rei Hamurabi e o Rei Nabucodonosor.

A vaidade, tão peculiar nos atos de Lúcifer é a marca fundamental da conduta de seus soberanos terrenos.

O relato babilônico consiste na apresentação da superioridade de Marduk, Deus protetor da cidade da Babilônia.

Marduk impera sobre todos os demais deuses da antiga Mesopotâmia, mas sua imposição de poder é mais especificamente direcionada à deusa Tiamat, que segundo o poema é a Deusa do mar e, consequentemente, do caos e da ameaça. Marduk representa a luz e a ordem, enquanto Tiamat representa o caos e a escuridão.

A vitória de Marduk é a vitória da luz e da ordem. O panteísmo babilônico introduz a ideia do divino masculino e do divino feminino, relatando a constante guerra entre os dois.

É a representação da dualidade: dia versus noite, luz versus trevas, ordem versus desordem, caos versus criação, homem versus mulher.

O Gênesis descreve seis dias de criação, seguido de um dia de descanso; o Enuma Elish descreve a criação de seis deuses e um dia de descanso.

Tanto o Gênesis quanto o Enuma Elish obedecem a uma mesma ordem cronológica da criação, começando pela Luz e terminando com o Homem.

Através da leitura das sete tábuas do Enuma Elish percebemos rapidamente que a deusa Tiamat é perfeitamente comparável ao oceano primordial do Gênesis. Tiamat são as águas primordiais de onde tudo surgiu, e o mais curioso é que a palavra hebraica traduzida para oceano tem a mesma raiz etimológica da palavra Tiamat, mostrando influências linguísticas do Hebraico sobre o Sumério e vice versa.

 

Cesar de Aguiar

teolovida@gmail.com

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