Usando o mesmo critério para dar nome ao Gênesis bíblico, o nome Enuma
Elish foi retirado das primeiras palavras daquele poema e significa ‘Quando no alto’. O nome do Gênesis é
Bereshit e significa: ‘No princípio’,
que são as primeiras palavras do livro bíblico.
Para a cultura babilônica, o Enuma Elish explica que a realeza humana
tem a sua origem na realeza divina. Segundo o relato, a divindade continuará
sendo o verdadeiro e legítimo rei de toda a criação e também o paradigma do
reinado dos terrestres. Nesse sentido, a existência de um paradigma divino
impõe sentido à existência da realeza humana.
O sentido que o Enuma Elish dá para a vida humana é muito parecido com o
sentido que YHWH deu para a consciência de seu povo.
Na Religião de Deus o homem é o Rei do Mundo, todavia ele existe para
louvor e glória Daquele que o criou.
A beleza do relato babilônico dura muito pouco.
No Gênesis, o homem foi criado a partir de uma mistura de terra e água
para ser amigo de Deus e governar sobre a criação. No Enuma Elish, o homem é
criado a partir do derramamento de sangue de um deus, para ser escravos dos
deuses.
No Enuma Elish a criação é realizada em meio a tramas de ódio, vingança
e assassinato. Em meio às épicas batalhas, os deuses mostram suas fragilidades
e se tornam sujeitos à matéria e mais fracos que a própria natureza criada.
A imposição dos poderes desses deuses se faz através de encantamentos
mágicos, usando a própria energia da natureza. Esse relato nada mais é que a
falsa versão de Lúcifer da guerra na qual ele foi vencido no Céu dos Céus. A
Serpente quer conferir legitimidade às suas ações e faz isso criando uma
religião em volta de si.
No Gênesis, a natureza é uma súdita obediente ao Criador e tudo vem à
existência pelo comando da voz de Deus. A criação é executada em meio a uma
profunda sensação de equilíbrio, tranquilidade e paz. Segundo o relato do
Gênesis, Deus trouxe tudo à existência através de sua Palavra, o Logus, que se
resume em comandos simples: "E disse
Deus ..." "E assim se fez ...".
Enquanto os deuses babilônicos são atributos da própria natureza, o Deus
do Gênesis é o Criador Supremo.
Diante do Deus verdadeiro a natureza se curva, sendo sob Ele, autônoma no
seu funcionamento.
O Gênesis é um perfeito épico da criação enquanto o outro tem a
finalidade de ser uma propaganda mitológica com o objetivo de inserir o deus
Marduk como o maioral do panteão babilônio. Além do objetivo religioso, o Enuma
Elish objetivava exaltar a grandeza da cidade de Babilônia e assim eternizar o
poder e influência de seus maiores governantes, o Rei Hamurabi e o Rei
Nabucodonosor.
A vaidade, tão peculiar nos atos de Lúcifer é a marca fundamental da
conduta de seus soberanos terrenos.
O relato babilônico consiste na apresentação da superioridade de Marduk,
Deus protetor da cidade da Babilônia.
Marduk impera sobre todos os demais deuses da antiga Mesopotâmia, mas
sua imposição de poder é mais especificamente direcionada à deusa Tiamat, que
segundo o poema é a Deusa do mar e, consequentemente, do caos e da ameaça.
Marduk representa a luz e a ordem, enquanto Tiamat representa o caos e a
escuridão.
A vitória de Marduk é a vitória da luz e da ordem. O panteísmo
babilônico introduz a ideia do divino masculino e do divino feminino, relatando
a constante guerra entre os dois.
É a representação da dualidade: dia versus noite, luz versus trevas,
ordem versus desordem, caos versus criação, homem versus mulher.
O Gênesis descreve seis dias de criação, seguido de um dia de descanso;
o Enuma Elish descreve a criação de seis deuses e um dia de descanso.
Tanto o Gênesis quanto o Enuma Elish obedecem a uma mesma ordem
cronológica da criação, começando pela Luz e terminando com o Homem.
Através da leitura das sete tábuas do Enuma Elish percebemos rapidamente
que a deusa Tiamat é perfeitamente comparável ao oceano primordial do Gênesis.
Tiamat são as águas primordiais de onde tudo surgiu, e o mais curioso é que a
palavra hebraica traduzida para oceano tem a mesma raiz etimológica da palavra Tiamat,
mostrando influências linguísticas do Hebraico sobre o Sumério e vice versa.
Cesar de Aguiar
teolovida@gmail.com
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