domingo, 12 de abril de 2026

MÊNFIS


 

A cosmogonia de Mênfis era centralizada em Ptah, o deus patrono dos artesãos, ferreiros, escultores e armadores. Ptah era o arquétipo da habilidade peculiar que o artesão possui de projetar materiais elegantes a partir de matéria bruta.

Bem diferente dos outros relatos egípcios, em Mênfis contava-se que tudo foi criado a partir do poder do demiurgo, sem manipulação do mundo físico.

Segundo Platão, demiurgo é o artesão divino ou o princípio organizador que, a nível universal, sem tanger a realidade manifestada, modela e organiza toda a matéria, partindo do caos preexistente, culminando na manifestação por imitação, de modelos perfeitos existentes dentro do plano eterno.

Na teologia dessa cosmogonia, tudo o que Ptah desejava fazer, pelo poder de seus pensamentos, eram trazidos à existência. Foi assim que ele criou tudo o que existe, inclusive os outros deuses.

Aparentemente trata-se de uma cosmogonia simples sem o arrojo das batalhas épicas e do luxo peculiar à figura dos deuses egípcios. Todavia, a teologia presente no conceito da criação em Menfis alude à simplicidade da forma como YHWH criou todas as coisas usando um complexo sistema de forças naturais e uma espetacular organização atômica.

Naquele tempo, essa semelhança teve um papel importante no sentido de atender muito bem a demanda de confundir a mente dos homens que não tinham uma definição clara de quem era o Deus Invisível.

Ptah tinha características que, em tese, o igualavam ao Deus de Israel.

Paulo afirma que “Deus dá vida aos mortos e chama à existência as coisas que não existem, como se elas já existissem” (Rm 4:17). Em Hebreus o escritor afirma que “Pela fé compreendemos que o Universo foi criado por intermédio da Palavra de Deus e que aquilo que pode ser visto foi produzido a partir daquilo que não se vê” (Hb 11.3). Toda a Bíblia está cheia de afirmações acerca da criação que nos remete à forma usada para descrever a criação pelo demiurgo egípcio. “Pois ele falou, e tudo se fez; Ele ordenou, e tudo surgiu” (Sl 33.9).

Shakespeare já havia avisado: "O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém". Repetindo a constatação frente a outras tradições religiosas da antiguidade, percebemos retalhos da verdade na tradição egípcia. São retalhos significativos que certificam que eles não possuíam toda a verdade. Possuíam meias verdades. E meias verdades são mentiras cem por cento.

Acerca dos falsos deuses egípcios, afrontados pelo Grande EU SOU, quando da libertação do povo de Israel das terras do faraó, a seu tempo profetizou Jeremias: “Digam-lhes isto: ‘Esses deuses, que não fizeram nem os céus nem a terra, desaparecerão da terra e de debaixo dos céus’. Mas foi Deus quem fez a terra com o seu poder, firmou o mundo com a sua sabedoria e estendeu os céus com o seu entendimento. Ao som do seu trovão, as águas no céu rugem, e formam-se nuvens desde os confins da terra. Ele faz os relâmpagos para a chuva e dos seus depósitos faz sair o vento. Esses homens todos são estúpidos e ignorantes; cada ourives é envergonhado pela imagem que esculpiu. Suas imagens esculpidas são uma fraude, elas não têm fôlego de vida. São inúteis, são objetos de zombaria. Quando vier o julgamento delas, perecerão” (Jr 10:11-15).

O texto bíblico tem uma intenção clara: afrontar os deuses e seguidores da religião egípcia que ainda existiam nos tempos de Jeremias.



Cesar de Aguiar

teolovida@gmail.com

 

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