“E cada qual
andava para adiante de si; para onde o espírito havia de ir, iam; não se
viravam quando andavam” (Ez 1.12).
As cordas dimensionais foram tangidas pelo Espírito Santo e suas
vibrações sobre a face das águas conduziu o processo da criação.
Os Seres Viventes, conforme contemplados pelo profeta, seguiam
sempre em frente, assim como o tempo e a expansão.
Os Seres não refaziam nada, não se viravam, não se arrependiam,
não voltavam atrás. Seus movimentos eram como os ponteiros do relógio, sempre
na mesma direção, na trajetória de evoluir pelo eterno recomeço da fluidez
eterna.
O fim foi fixado desde o começo e o começo foi fixado no fim,
ligados ponto a ponto um ao outro, como o perímetro de um círculo em expansão,
como o uroborus - a serpente que engole a própria cauda.
Presos um ao outro como a chama é presa à brasa, como o feto no
ventre é preso à mãe pela corda que liga o fim e o começo; e o começo ao fim.
Assim o Senhor fez! Ele é o Uno. Fora Dele não há um segundo.
Antes do Um, o que contar?
O que acontecia no céu, ocultado pelo véu da realidade manifestada
era replicado no mundo da matéria densa; “assim na terra como no céu”. Tudo o
que se formou e que existe possui um valor relativo perfeito no mundo das
ideias, postulado que nada é absoluto, senão o Eterno, o Uno.
Conforme a capacidade de entendimento do aluno, os mistérios tomam
as mais variadas formas da mesma verdade eterna.
Perceba que uma pintura de Monet é interpretada pelos olhos do
ignorante como um desperdício de tinta em um amontoado de borrões coloridos.
Todavia aos olhos evoluídos, a percepção da mesma pintura, remete o observador
a lugares, sentimentos e abstrações da profundidade da alma.
No espaço infinito que abrange todas as realidades possíveis das
emanações do Criador, as milhares de possibilidades são verdades relativas
reveladas segundo o nível de compreensão de cada iniciado.
Enquanto Ezequiel vê Seres Viventes, o estudioso do século XXI
pode perceber as nuances das Forças Cósmicas. São visões diferentes de
equivalências eternas, apresentadas em línguas dirigidas a audições diferentes. “Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça” (Mc 7.16) “em sua própria língua” (At 2.8).
“Para onde o espírito
queria ir, eles iam; para onde o espírito tinha de ir; e as rodas se elevavam
defronte deles, porque o espírito do ser vivente estava nas rodas” (Ez 1.20).
Ezequiel continuou a descrição da sua visão, falando de rodas e
aros; uma figura de forma circular. Quem está atento ao livro imediatamente
será remetido ao conceito da onda provocada pelo Pão que foi lançado sobre a
face do Lago das Águas Primordiais.
O Espírito de Deus vibrando sobre as águas do lago aos pés do
Trono do Altíssimo conduzia as decisões que orientavam os passos dos quatro
Seres Viventes que representam as quatro forças.
“E sobre as
cabeças dos seres viventes havia uma semelhança de firmamento, com a aparência
de cristal terrível, estendido por cima, sobre as suas cabeças” (Ez 1.22).
Trata-se do lado superior do Lago, o verdadeiro firmamento! A face
das águas aos pés do trono do Altíssimo. Esse é o lado superior do Lago das
Águas Primordiais. A expressão ‘cristal terrível’ fala do intenso brilho da
superfície das águas, onde a absoluta glória de Deus é refletida.
Esses super-anjos são os quatro querubins designados por Deus para
guardarem e sustentarem o nosso universo. São eles que em primeira instância
guardam os quatro cantos do Universo, mas também sustentam os quatro cantos da
terra com suas quatro estações do ano.
Eles são a forma espiritual daquilo que a ciência chama de quatro
forças fundamentais que sustentam todo o funcionamento do universo.
“E, andando
eles, ouvi o ruído das suas asas, como o ruído de muitas águas, como a voz do
Onipotente, um tumulto como o estrépito de um exército; parando eles, abaixavam
as suas asas” (Ez 1.24).
Os Querubins responsáveis pelo funcionamento do Universo são a
personalidade espiritual das Forças que comandam a máquina do cosmo. Sua área de
atuação é no mundo submerso, abaixo da superfície do Lago das Águas
Primordiais. Todavia, não limitados ao tempo e ao espaço, eles também fazem o
contato entre o mundo da superfície do lago e o nosso universo.
Imaginem a cara de estupefação de Ezequiel! Anjos rompendo a
superfície das águas do Lago de Deus, e por um momento, os sons da terra e do
céu se misturando. Vozes como de muitas águas, a voz do Onipotente e o
burburinho de um exército pronto para a batalha. Na mistura dos sons da
eternidade com os sons do universo criado forma-se uma nova categoria de
vibração que se dissipa na medida que, rompendo as águas cada vez mais
profundas, através de suas ondas vão formando seres de matéria
proporcionalmente mais densa que a dos seres da superfície.
Jacó viu anjos que subiam e desciam por uma escada. Anjos que
faziam uma trilha entre o céu e a terra. Anjos que trafegavam nas duas
dimensões: no tempo e na eternidade. Seres que, por frequentarem os dois mundos
têm a habilidade de atuarem como mensageiros e controladores do princípio
espiritual que espelha a realidade manifestada.
Os últimos versículos do texto do capítulo 1 de Ezequiel são os
mais impressionantes.
“E ouviu-se
uma voz vinda do firmamento, que estava por cima das suas cabeças; parando
eles, abaixavam as suas asas. E por cima do firmamento, que estava por cima das
suas cabeças, havia algo semelhante a um trono que parecia de pedra de safira;
e sobre esta espécie de trono havia uma figura semelhante a de um homem, na
parte de cima, sobre ele” (Ez 1:25,26).
Ezequiel continua descrevendo sua visão apresentando o trono que
está acima da superfície do Mar de Cristal. De pedra de safira era a aparência
do trono e sobre ele se assentava alguém que possuía o aspecto de um homem que
observava tudo: O Cristo homem. O Verbo que existia desde antes da criação de
todas as coisas.
Na visão do trono o profeta percebe um arco-íris no Monte da
Congregação, com as mesmas sete cores que são peculiares aos arco-íris visíveis
em dias de chuva no nosso planeta. “Como o
aspecto do arco que aparece na nuvem no dia da chuva, assim era o aspecto do
resplendor em redor. Este era o aspecto da semelhança da glória do Senhor; e,
vendo isto, caí sobre o meu rosto, e ouvi a voz de quem falava” (Ez 1:28).
Na habitação de Deus, Ezequiel viu uma ligação com a habitação dos
homens. Isso é um sinal do cuidado do Criador para com suas criaturas. O mesmo
fenômeno que abrilhanta os céus em dias de chuva em nosso planeta é visto junto
ao Trono, de onde o Livro do Tempo é contemplado.
No céu do planeta assolado pelo dilúvio, ao fazer aliança com Noé,
Deus estabeleceu o significado do seu arco.
No céu da terra, o arco aponta uma flecha para o infinito, para a
habitação de Deus.
O Arqueiro tencionou o arco de sete cores formando um desenho
geometricamente perfeito. Ele disparou a flecha assumindo a possibilidade de
errar o alvo (note que o significado literal da palavra pecado é ‘errar o
alvo’). Até mesmo porque, ninguém além Dele tinha a cura para a doença do
pecado. Assumiu a responsabilidade porque já estava definido que somente o
sacrifício do próprio Deus teria eficácia para satisfazer Sua perfeita
justiça.
Quem está afundado nas trevas da turbidez deve tomar carona na
flecha que aponta para a superfície. Na viagem rumo à consciência do Uno,
haverá obrigatoriamente uma ascensão na escala da evolução. O que era realidade
em tempos já vividos passa a ser compreendido como sombras.
A evolução espiritual traz consigo a percepção de que aquilo que
antes era tomado por realidade, na verdade eram sombras.
A viagem sobre os lombos da flecha nos conduz a um continuado
despertar, um ininterrupto estado de iluminação.
Cada movimento rumo à superfície, cada estádio percorrido, traz
consigo a impressão de que fomos finalmente iluminados, e com essa impressão
vem a tentação de nos envaidecermos na autovalorização.
Cuide-se de que o Eterno seja a sua única fonte de motivação. Tome
cuidado com o desejo de crescimento. Se o Eterno for sua única fonte de força e
dedicação, tu crescerás na beleza do amor e desejo pelo Criador. Todavia, se
fizer do desejo pelo crescimento a sua motivação, tu te tornarás frio,
calculista, morto pela letra e escravizado pela imensa vontade de projeção
pessoal.
A flecha é uma nave e viajamos na sua carona. A maturidade
alcançada pela soma dos estágios vencidos na viagem sobre flecha, nos leva a
concluir com o filósofo que diz: “só sei que
nada sei”, e que a plenitude da luz só será percebida quando rompermos o
limite das águas, onde a consciência absoluta será alcançada após a final
devastação da matéria densa.
Quem se assenta no Trono? Quem é semelhante a um homem?
O lago pertence a Ele! O universo pertence a Ele!
“Dele, por
Ele e para Ele são todas as coisas” (Rm 11.36).
Ele é Jesus. O Deus Vivo.
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Cesar de Aguiar
do livro Gênesis Desvendado