“Já fui católico, budista,
protestante. Tenho livros na estante, todos tem explicação. Mas não achei! Eu procurei!” (Raul Seixas).
Nunca parou de se escrever acerca dos dias da criação.
Desde a literatura da Grécia clássica, dos pictogramas egípcios, das
tábuas de argila, até os mais modernos tratados de teologia sistemática, sempre
houve estudioso disposto a manifestar sua opinião, constatação ou comentário
sobre a forma usada pelas divindades históricas para construírem esse imenso
prédio que chamamos de universo.
Esses relatos antigos, em função da suposta evolução do homem, com o
passar do tempo recebem uma nova designação. O que era a religião de um povo
passa a ser chamado de Mitologia. Nesse sentido o mitólogo Joseph Campbell, de
forma intimista define muito bem o sentido do termo ‘Mitologia’: “Mitologia é o nome que damos à religião dos
outros”.
É certo que ninguém tem satisfação em perceber que a religião que
professa é considerada como mitologia por algum outro grupo.
A intolerância motiva a construção da apologética religiosa.
As faculdades cristãs são peritas em analisar a religião dos outros,
incluindo no currículo de seus cursos acadêmicos uma matéria específica para
condenar e denegrir as doutrinas e dogmas das outras religiões. Algumas
faculdades chamam essa matéria de ‘Seitas e Heresias’, outras, na tentativa de
parecerem mais elegantes dão um nome mais rebuscado para a mesma coisa,
chamando a matéria de ‘Apologética Cristã’.
Na defesa das prerrogativas de
sua fé pessoal, o ser humano não mede esforços em elaborar argumentos que torne
suas crenças mais legítimas, mais elegantes, mais carregadas de sentido, indo
às últimas consequências através de assédio moral e intelectual na busca de
aliciar prosélitos.
Certamente era o preconceito e a intolerância religiosa que motivava os
fariseus dos tempos de Jesus a serem prosélitos profissionais. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!
pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o
terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt
23:15).
Em nenhum momento do Novo Testamento encontramos Jesus ou seus apóstolos
praticando proselitismo. Eles pregavam a verdade que acreditavam e que haviam
experimentado, contudo sem ofender a fé dos diferentes.
Muitos são os que vão considerar como mitologia o relato que
apresentamos. Até mesmo os cristãos, ainda que diante de tantas evidências e
citações das Escrituras, não vão abrir mão de continuarem no lugar comum de
suas convicções religiosas tradicionais. Outros vão rir debochando do que virão
a chamar de mitologia ou ficção bíblica.
Consideramos isso como aceitável. A crítica é vitamina para o método de
aprendizagem e legítima no processo de evolução do conhecimento humano.
Verdades muito profundas são lugares ocultos a pessoas rasas.
Analisando os relatos da Bíblia Judaica constatamos que historiadores,
filósofos e teólogos sempre estão dispostos a manifestarem suas opiniões acerca
dos assuntos tangentes aos seis dias da criação, conforme exposto em Genesis
capítulo 1.
Mesmo após muitos anos de discussão e depois de tantas teorias e
explicações, nunca se chegou a uma unanimidade de opiniões!
Alguns afirmam que os dias de Genesis são dias literais de 24 horas,
outros que se trata de eras, e ainda outros afirmam que os seis dias não falam
da Criação, mas da recriação da terra, que na visão do escritor cristão George
Hawkins Pember foi destruída por uma catástrofe, que está ‘descrita de forma
oculta’ nas entrelinhas do segundo versículo das Escrituras.
A acidez da filosofia de Voltaire nos vem à lembrança para justificar
nosso esforço em prosseguir com a busca pelas respostas: “Uma discussão prolongada significa que ambas as partes estão erradas”.
Voltaire não nos quer desanimar. Pelo contrário! O filósofo quer que
continuemos perseguindo a verdade.
A continuidade dessa discussão é sinal de que ainda temos muito trabalho
a realizar. Um trabalho inacabado dá sentido à existência, motiva a caminhada,
confere razão de ser à realidade humana e torna a vida carregada de
significado.
Nesse ensaio, vamos nos enveredar por outra via!
Nesse novo caminho não seguimos as pisadas dos mestres. Apenas
continuamos a procurar o que eles procuravam.
Estamos pavimentando uma nova estrada, por onde novos estudiosos poderão
trilhar deixando suas próprias marcas. Esperamos que os futuros desbravadores
sejam mais eficazes do que nós mesmos. Esperamos que logrem sucesso no árduo
trabalho de desgastar o tecido da realidade. Oxalá que mostrem à humanidade o
que existe por detrás do véu.
"As convicções são inimigas
mais perigosas da verdade do que as mentiras” (Friedrich Nietzsche). Temos a certeza de que estamos no caminho certo,
mas ainda não chegamos na claridade da resposta definitiva. Com trabalho e com
ajuda, poderemos chegar cada vez mais perto!
"A instrução é um esforço admirável. Mas as coisas mais importantes da
vida não se aprendem, encontram-se” (Oscar Wilde). Se caminharmos na mesma
direção, dando um passo de cada vez, um dia certamente chegaremos.
Equilibrar o peso do que a Bíblia diz sobre os seis dias da criação, com
o peso das afirmações das teorias e postulados científicos é uma tarefa difícil
de realizar!
Aparentemente, a ciência e a religião estão brigando pela posição de ser
a dona da razão! Parece que estão tratando conceitos teológicos e científicos a
partir de abordagens completamente diferentes. Todavia, por mais diferentes que
essas abordagens se pareçam, sempre é possível encontrar o ponto de equilíbrio.
Afinal, uma verdade pode ser dita de várias maneiras diferentes sem contudo
perder a sua essência. Como está escrito
nos Vedas: “a verdade é uma só, mas os
sábios falam dela sob muitos nomes”.
A cultura do mundo pode ser analisada a partir de três abordagens: a
abordagem histórica, a abordagem mítica e a abordagem mística. Embora essas
três camadas hermenêuticas analisem os fatos por metodologias diferentes, o
saldo deverá ser positivo para a evolução do conhecimento humano.
Individualmente cada uma das abordagens pode ser entendida como uma peça
desse quebra cabeça e se faltar uma única peça jamais chegaremos ao quadro
perfeito, por isso cabe a subordinação de admitir que a resposta final não é
faculdade inexorável da ciência ou da religião.
Cabe ao exegeta usar corretamente cada uma das abordagens e finalmente
unir todas elas, formando uma bela colcha a partir dos retalhos recortados da
história, da ciência, da mitologia, do misticismo, da religião, mas
principalmente da iluminação do sol que ilumina a superfície do lago das águas
primordiais. Fazendo isso, poderemos conciliar as discussões entre ciência e
religião.
Usando palavras, definições e nomenclaturas diferentes, afirmamos que a
ciência reescreve as Escrituras, e pela mesma premissa podemos afirmar que a
teologia insere variáreis na equação da Teoria do Tudo.
"Meus amigos, uma falsa
ciência gera ateus, mas a verdadeira ciência leva os homens a se curvarem
diante da divindade"
(Voltaire).
Cesar de Aguiar
teolovida@gmail.com